domingo, 14 de dezembro de 2014
UMA LÁGRIMA
(a minha mãe)
Antes não visse a lágrima que riscou-te a face
com seu brilho urdido na escuridão da alma.
Antes não visse a cintilação da sombra
na joia sinistra e solitária, lapidada pelas mãos ásperas
da dor profunda.
Antes não estivesse a tua beira quando viste tantas coisas
pretéritas com olhos que não se veem,pois também com eles ainda vejo
aquela gota amara que continha a procela de tantos oceanos,
embora mansa escorresse lentamente em teu rosto,
para salgar-te os lábios desertados por todas as palavras.
CONFLITO
O que é de mim,
que se perdeu,
que é em mim,
e não sou eu,
alheio a mim,
inda que meu,
me faz sofrer,
ser como um deus
que se criou
e se esqueceu.
Falta-me algo
que não sei.
Falta-me um reino,
e eu sou rei.
Porque este em mim
que tem meu nome,
que está em mim e me é fome,
é alimento e me consome.
Quero-me livre,ele é a lei,
ele me sabe,eu o não sei.
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