sexta-feira, 28 de novembro de 2014
INFÂNCIA NO LARGO DE NAZARÉ
( a meu querido pai)
Enquanto lias teu jornal prosaico
e dormitavas vencido pelas frases
mais longas,
eu,à tua roda, brandindo o ramo flexível
de árvores anosas,
derrotava,intimorato,com o peito condecorado
de chagas, exércitos poderosos
de vilões maldosos.
No calor da peleja cruenta,
não podia eu imaginar que o golpe mais duro,
a estocada mais lacerante,
a fria lâmina que atravessaria todas as paragens
do coração,receberia quando te procurasse
em vão no meu remansoso campo de batalha,
onde,sem clemência,verti o sangue de inimigos
que tramavam minha alegria.
TRAMA
(a minha mãe)
Urdia o tempo a saudade.
Tão descrente
desse deus inclemente,
eu adorava manhãs.
Cumpriu-se, no entanto,
a promessa antiga
que rubros crepúsculos
sussurravam ao entardecer:
levaram-te de nós
horas contumazes,
pressurosas operárias
da constante mutação.
Sabemos hoje como dói,
no peito humano,a alegria.
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