sexta-feira, 28 de novembro de 2014
INFÂNCIA NO LARGO DE NAZARÉ
( a meu querido pai)
Enquanto lias teu jornal prosaico
e dormitavas vencido pelas frases
mais longas,
eu,à tua roda, brandindo o ramo flexível
de árvores anosas,
derrotava,intimorato,com o peito condecorado
de chagas, exércitos poderosos
de vilões maldosos.
No calor da peleja cruenta,
não podia eu imaginar que o golpe mais duro,
a estocada mais lacerante,
a fria lâmina que atravessaria todas as paragens
do coração,receberia quando te procurasse
em vão no meu remansoso campo de batalha,
onde,sem clemência,verti o sangue de inimigos
que tramavam minha alegria.
TRAMA
(a minha mãe)
Urdia o tempo a saudade.
Tão descrente
desse deus inclemente,
eu adorava manhãs.
Cumpriu-se, no entanto,
a promessa antiga
que rubros crepúsculos
sussurravam ao entardecer:
levaram-te de nós
horas contumazes,
pressurosas operárias
da constante mutação.
Sabemos hoje como dói,
no peito humano,a alegria.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
DÉDALO
(a Ynez)
A luz migrava dos campos,
quando neles espraiou-se tua aurora.
Eu, que não cria em
verdades, pus em altares
as mentiras do amor.
Vi no deserto miragens,
bebi a areia de oásis
que vicejavam no coração.
As mãos,calejadas na
construção de muralhas,
tornaram-se leves e macias
para percorrer teu corpo
em busca de labirintos.
DESENCONTRO
Um rio cortou-me a alma
sem pontes nem compaixão.
Meus olhos desceram ao pego,
mergulho na solidão
de quem procura caminhos
nas sombras de seu desvão.
Com a alma fendida
ao meio,
quis vadear o veio,
e vi que seria em vão.
O veio era rio fundo,
o rio era a amplidão.
Lancei então muitos gritos,
que atroaram o coração,
e , no fundo dos espelhos,
responderam aos meus anseios
risos frouxos de truão.
INFÂNCIA
(a Caetano Veloso)
De onde vim nada partia,
vasta região da alegria,
pátria sem lei do coração.
Terra em que as horas são serras
fincadas na amplidão dos átimos.
Trouxe de lá a saudade,
que são os olhos do poeta na canção.
Vou, por trilhos que rebrilham,
ao recôncavo da alma.
Nele, verdes canaviais vicejam.
Dele, extraio o doce sumo
que atenua a dor amara.
ULTRAMAR
Entre os cristais
do desejo vislumbrei
o novo mundo.
Porém as velas,
na lenta procissão das
serras, deixaram a palma
do coração aflito.
Na praia deserta fiquei,
mas o sonho,rebelde,
embarcou em naus velozes
e nelas seguiu clandestino.
ENCANTAMENTO
Que voz suave tem o amor,
quando nos promete a paz.
Que mãos macias ele tem,
quando nos toca o coração.
Que pés ligeiros tem o amor,
quando nos leva ao poço de quartos vazios,
onde enxergamos na escuridão.
PROMISSÃO
O aroma do teu corpo,
a porta aberta do teu mundo,
a branca nau do olvidamento
por partir e naufragar.
Amplas velas, gávea cega,
selvagens praias,
que já foram Américas
de andina solidão.
Na costa promitente,
as palmas, outra vez,
acenam,generosas,
e ocultam os sertões,
onde cardos lacerantes
abraçam as veredas
e a rosa dos ventos
não abrolha.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
A CRIADA, A MORTE E O MAGISTRADO
( a Diana)
A morte, irreverente,
tirou-lhe do peito as medalhas.
Tomou-lhe a borla, a toga e todos
os títulos.
Despido de tudo,
sem brocardos e palavras raras,
sem discurso,
naquele instante,
era apenas o menino que
nascera num longínquo fevereiro.
Foi assim que ela, vencendo
grandes distâncias,embalou-o,
chorando,
para entregá-lo a sonhos que jamais se contam,
e que , em breve, também
ela sonharia.
LIMITE
Onde fui buscar-me,
a vida era litoral.
As ondas não cessavam
de molhar-me os pés,
insistindo em convites sempre iguais:
vem que estas águas são tuas,
são elas teus sonhos de paz.
SILÊNCIO
( a Baudelaire)
Fez-se uma treva
tão densa,
que nem a noite sem lua
pôde iluminar meu verso.
Eu e o tempo
nos unimos
sem palavras.
No templo do poeta
não havia ecos,
só a chama de uma paixão ardia
e queimava meu corpo em sacrifício.
SINO DO DESTERRO
( a meu pai)
Doce sino do passado,
dobras em meu coração.
Marcas horas que passaram,
horas que não passarão.
Eras meu companheiro antigo,
quando folgava com amigos
em noites que encerravam
cálida luz de verão.
Hoje, quando tu soas,
em minha alma ressoa
a voz daqueles que vivem
nas horas do coração.
DESCOMPASSO
( a Ynez)
Longe das enseadas tranquilas da solidão
erro em tua distância.
A escuridão da noite brota lentamente
de grutas profundas,
auroras urgentes sangram em teu coração.
Teu tempo é amanhã,
teu lugar é sempre além.
VIAGEM A LENÇÓIS
( a Luís Machado)
Esta viagem não faremos juntos , caro amigo,
esta sem notícias nem postais.
A que deixa nas estações destas paragens
perguntas sem resposta
e o lamento dos trens a ecoar em vales ermos.
Num tempo já distante, vimos
as águas nos ensinar a vida,
correndo entre pedras rijas.
Hoje te vejo passar,
confirmando a lição dos rios e regatos.
O mar que te recebe, amigo,
é para nós todo abissal.
Que seja ele para ti
a visão do que procuravas,
e, se nele nada se vê,
que seja,então, o cessar de tudo que aqui
foi angústia, dor e desilusão.
RERFÚGIO
Hoje conta-me histórias,
histórias de príncipes galantes e
ternas princesas.
Canta-me, hoje, as mais doces canções de ninar.
Aquelas que têm as melodias do silêncio,
se muito, as brandas sinfonias da viração nos arvoredos.
Embala-me em teus braços.
Que eles, suaves como nuvens,
tenham a rigidez da rocha que acolhe
o náufrago.
Deita-me , hoje, um olhar tranquilo
de quem sabe que tudo passa, mesmo a dor contumaz
que em meu peito já não dói, mas o é por inteiro.
Sim, hoje sou criança e a noite sitia a minha casa
pequenina e frágil, com seu ventre tétrico pleno de sombras,
brandindo o látego das tempestades.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
VIAGENS
( a minha querida irmã Verbena)
Cidades visitadas são cidades perdidas.
Cidades perdidas são eternas, fundadas
no coração.
Delas não retornamos jamais.
Quedamos em suas praças e ruas,
vagamos por suas longas avenidas
arrostando as tristezas mais fundas.
Cidades visitadas são a luz que cruza
célere o espaço, oriunda da estrela extinta.
Cintilam na constelação da memória.
A elas nunca regressamos.
Muralhas as circundam, fossos sem levadiças
as proíbem, para todo o sempre perdidas,
eternais, imperecíveis na arquitetura ubíqua
da alma.
ARCÁDIA JUNINA
Brando sol de junho amigo,
leve afago sobre a relva
de doce luz temporã,
se fere teu dardo a sombra,
o frio pensa a ferida.
Sob teu império ameno,
cada flama sorve, ávida,
toda planta que viceja,
e o regato, reluzente,
no dorso leva,servil,
a galáxia de teu brilho.
O milharal , quando passas,
ergue dourado estandarte
e a treliça das copas
coa-te o raio benigno,
para que não rompas, da rocha,
a veste verde do musgo.
Assim segues pelos céus
aquecendo verdes campos
sem ferir a flor singela
e crestando levemente
a pele de quem afloras.
Quando te pões,
já renasces
nas fogueiras que pelejam
com as brumas do inverno
e, nas noites de folgança,
nas juninas madrugadas,
brunes teu aço rijo
com a terna luz do luar.
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